31 de maio de 2008

Homem homem

“Nothingman...
Nothingman...
Isn't it something?
Nothingman...”
Pearl Jam

Viveu as existências sem preserva, chamou-se Homem. E quando brotava a luz nos órgãos, Homem nascia. Ia então por todo lugar e criava, por magia, uma cidadania. Cumpria documentos, supria uns espaços, assumia temporalidade. E sem prévias saudades, voltava às práticas circulares, dessas sem evolução. Num movimento assim, tufão, Homem morria. Mas a luz retornava, num sopro de esperança indefinida, e Homem nascia. E muito enganava, talvez a si, gentes em todo instante. Continuava o pouco-dizer constante numa falácia interminável na imaginação de outrens... brotando orações, verbos e súplicas, um querer-viver sem conduta, e vinha Homem reter vontades. Pobre e sem divisas, reunia tantas incompletudes! E dava-se o ecesso de reticências. Vinha, que Homem morria. Novos piscares de luz: Homem nascia. Luzes às cegas: Homem morria - Era um caminhar de vida até a morte, morte para a vida. Se não é o que se faz no mesmo ritmo do girar da Terra? Homem homem. Nem sofria exposição para despedidas. Homem sumia, sem cuidados, sem sentimentos fraternos, sem medidas. Homem matava. Era animal para novos séculos, não estes, e passeava. Devia ter nascido antes, podia ter resolvido viver mesmo além daqui, chão quente, como ninguém o faz. As palavras do Homem estão por conta do caminho que o vento traça; e para o fim das imagens, o torcer dos olhos. Feito que recomeçou os passos à frente, aquela longa delirante estrada. Homem morria, não morre mais. Homem escondia, Homem vivia.

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28 de maio de 2008

Pré-Projeto

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Ampliar o horizonte dos olhos...

Adentrar
o
horizonte
nos
olhos
.

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23 de maio de 2008

Para as passagens definitivas dos sentimentos intermináveis

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"De tanto eu te falar
Você subverteu o que era um sentimento e assim
Fez dele razão
Pra se perder no abismo que é pensar e sentir."
Los Hermanos
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Não tinha mais nada que fazer ali, e insistia, a moça-menina, em ter sobrenome. Lembrava-se dos nascimentos, das moradas, dos afagos adultos... e o que adiantavam? Toda ligação parecia-lhe consideração sem fundamento. Os olhos eram do pai, mas e os passos? As mãos da mãe, mas e as idéias? Bem se via numa unicidade real e assustadora. Como se fosse parida sem passado, veio este ser nascer em plena mocidade.
Por mais comum que fosse, ou natural, seja o que era ou não era, ela fingia imperceber certas diferenças quando tecia comparações. Os arredores eram preenchidos por outras moças tais quais, que questionar inoportuno? Não havia quem o sumisse. E participava dos grupos sem o coração bater; frequentava os bailes e aceitava os convites para dançar sem sorrir; os sins mais próximos da negação. E não era por mal: calara-se por todo tempo, numa ternura aparente que sufocava um desejo sem nome instintivo. A moça vivera sem se possuir.
Num desses propósitos duvidáveis, deu que fez-se dona de si e, forçada a interromper tradição, abriu os braços aos quilômetros. Por conta de triz, quase deu voz a um medo infante, desconhecido - quando pôde ter medo? Desejava manter contato, efemeridade dessa vida - era coisa de pensar nos entes, nada mais - , porque sentir-se inclusa era ilusão de dispensar recusa. O que ocorre de nós após chegar nesta terra senão assumir ser um corpo, apenas? Tinha a matéria ainda pequena, sem cortes, sem marcas, sem passado. Limpa, agora só moça, ansiosa por incorporar as futuras tatuagens, aqueles sinais das sensações da visão.
Corria ela pelas cidades, conhecia bairros, calçadas, gente e praças, e nada de possuir repouso; percorreu colégios, internos, molduras, tanta força norteada pela intuição. E de que valia? Os protocolos estavam ali para serem seguidos, as formações já lhe traziam diplomas, a moça assumira um dever e o cumpria. De todas as ausências, encontrava-se nas faltas alheias. E num dividir-se genuíno, fez os anos a década a ensinar-lhe a dar aos homens o que ela, de fato, mais necessitava. Aprendeu o sentido de amar praticando sentimento. Doação em doação, foi ganhando os sentires.
Pois já se fazia sustentável, já ganhava porções de liberdade, e sem ter as mãos trancadas em outras, que se podia praticar a se entregar à única vontade profunda oriunda da essencia? Ah, moça sem sobrenome, que serventia podia lhe trazer qualquer história? Que razão possuía cada anedota, antes angústia, depois alívio, vivida nesta juventude contraditória? Moça responsável por toda uma família guardada em volta do peito, idealizada pela semente que poderia brotar em cada afeto dedicado... E não é que não fosse, era para quem recebia. Moça, moça... tinha em quem conhecia o maior apreço na hora de chegada, a maior compreensão no instante de saída.
E percorrendo os entendimentos, lenta feito barco sem motor, ia a criatura desbravando com a lembrança os caminhos já percorridos e inventando outros rumos com os olhos que aprendiam a ler palavras nunca ditas, nunca escritas. Moça pesada de abraços sinceros, ganhou a forma de mulher provedora, e encerrando o suprir de egos distraídos, desembrulhou as asas gigantes, costuradas pelos afazeres dos dias de lágrimas solitários, e as vestiu. Pois o momento de mudar-se findamente lhe veio, e a moça-mulher voou para o canto em que finalmente podia usar a coragem para existir.

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18 de maio de 2008

Desapareci

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Se eu desaparecer, meu bem
Procure-me no além, único porém
Pela praça, pense bem.
Vá à oficina, à padaria, Jerusalém.
Porta de escola, casa de tintas, armazém.

Se eu desaparecer, meu amor
Toque tambor, solte calor, aniquila dor
Recorte passado, chova no molhado
Afina flor.
Borde dança marcada, passeata, licor.

Se eu desaparecer, meu querer
Desespere não.
Tô num vendaval qualquer, abaixo do pé
Nuvem de algodão.

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16 de maio de 2008

Pelo Canteiro Meu Caminho

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Eu quero, num súbito fantástico passo latino, cumprir a culpa dessas vozes que ditam as imagens que preciso montar. Para um alivio indecente dos meus risinhos de moça sabida, e boba dos olhares curtos. Tem uns sons, umas canções, as melodias que agradavam, e o que há agora? Benévola mutação desta dona de corpo... Como se dito as minhas verdades a cada hora, certos apreços devem ser dedicados a um horizonte só - que é isso de possuir tantas estradas? No meio, tomada pelos ventos de todos dois sentidos, o meu desvio. Eu peco pelas questões, eu acerto no horário delas: única que assusta-me é a relativa rapidez.

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13 de maio de 2008

Valendo as Metas

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Firmando os passos, os sapatos vão comprando conforto de distâncias.

"O que eu desejo ainda não tem nome."
Clarice Lispector

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11 de maio de 2008

Fadário

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E viveram felizes para sempre. Cumpriram a meta e foram naquele estado rumo à eternidade de se existir inabalável. Nem quiseram mais conceber outras planícies - pisaram firme, cresceram raízes naquela felicidade impenetrável e insurpreendente.
Mantiveram os mesmos rituais, não ousariam deslocar uma poeira sequer se não fosse desta escolha em se localizar. Respeitaram os fundamentos dos seres que cumpriam presença naquele lar, e celebraram as bravações constantes dos portões de ferro que limitavam o espaço, campo sagrado, e que atraiam os mais coloridos relâmpagos e raios trazidos pelas águas superiores em dias agrestes de liquidez. Brindaram cada canto de satisfação com estalos cobertos pelo suor do hálito, agora puro, abençoado em sentimentos descansados.
Voltaram à forma inicial de criatura divina, santificaram olhares em ares e tornaram intenso mar a maresia que nasceu das dilatadas íris. Deram as mãos por toda vida, compartilhando solidão. E de tão apertadas, uma a outra, esticaram as costuras da epiderme dos dedos e, acentuando as trilhas das palmas, em correnteza celeste conduziam-se ao final de era uma vez.

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8 de maio de 2008

Coisa Certa Não Tem Nome

"As pessoas, e as coisas, não são de verdade!
E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades?".
João Guimarães Rosa

Procurava, naquela pequena ocasião, separar as abtenções dos utensílios desaparecidos de valor, desfigurar as parecenças mundanas, catalogar as importâncias ficadas de cada recurso, libertar os pesos de si, limpar a presença essencial dos quereres somíticos. E o fez... Separou. Desfigurou. Catalogou. Libertou. Limpou. Nenhuma posse sobrou-lhe do resto que carregava. Pôde, enfim, ver-se sem as esmolas acumuladas das andanças, sem os pedaços 'contadores de outras histórias' que não a sua, sem os trambolhos, as bugigangas, as quinquilharias de problemas insolúveis. Fez caminhos longos e marcados pelas vestimentas remendadas, antes coloridas, impregnadas da poeira dos tempos desprovidos de começos. Quis ser só. Faltava-lhe aniquilar os pensamentos passados ali presentes. Aquelas imagens nos olhos da mente nunca lhe abraçaram, mas cumpriam morada na lembrança. Lutou e relutou, desgraçado, perdeu a guerrilha contra a própria consciência. Encontrava-se nu e entorpecido de desejos por coisas e pessoas e satisfações que jamais conheceu: nada e nem ninguém lhe foi de verdade, e quem consegue em existir, de fato, haver? Tanta recusa da vida doada... Coisa de ilusão. Tudo o que já lhe foi próximo e íntimo não se assemelhava aos anseios daquele, assim, tão pobre rico coração. E não entendia: terminava de morrer cada pedaço de alegria ao bater não-se-sabia-o-quê dentro do peito clamando por algo incógnito, uma saudade conhecida do desconhecido. Findou a ocasião pequena, mas de uma vida até se interromper. Reconheceu, por fim, que a saudade do que nunca se teve era justamente a vontade que se perdeu ao andarilhar as esquinas que nunca deixou de encontrar. Perdia para encontrar sustentação. Tornar-se apenas carne significou cobrir-se de substância presença em saudade.

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6 de maio de 2008

folia dos olhos

"menino bonito, menino bonito, ai!"

então. eram passos bem curtos, num ritmo salpicado, samba que clama o carnaval. a pele da cor de depois da minha, um desenho bonito. tem festa nessa roda, tem bamba toda hora, bamba canção... ai, moço de cheiro de longe, boca-banquete, malemolência dos ombros que faz o teto do corpo se inclinar! e se veio p'ra mim, num gesto indiscreto de proteção, azucrinar a solidão, fazer-me de fim.

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5 de maio de 2008

O Que Sobra é Principal

Tomado da mais alta extasia impossível, sonhada meta, justificada pela balbúcia teimosa que ouvira - palavras juntas de sentimentos fortes. E um toque de realidade e tudo trinca. Vida de corpo que não suporta o que é além também concreto. Bastava esta carne feroz por outro pedaço, e só. Virou-se: limpo, mais outra vez, para o próximo narrar. Demais, essências.
"And it rips through the silence,
all that is left is all that I hide."
Beirut - 'Elephant Gun'

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2 de maio de 2008

Dos Viveres dos Dias, A Compreensão

Os últimos dias descansaram mergulhados em violência sem direito, e ao invés de recolher conseqüências menores, foram levando essa constante promoção de ternura, como se preparasse um berço confortável para o futuro dono do colo aberto, pintado de azul. As pequeninas desilusões já foram anunciadas, e é perfeitamente possível identificar tais momentos de aviso. E assim, são pequeninas presenças de tristeza que geram um choro profundo... Mas libertam do engano maior que é rejeitar solidão. Porque há sensações que não se podem ser doadas, simplesmente, ou devem virar presente enlaçado, cheio de mistérios. Outras, mais dotadas de sentimentos que atitudes, surgem em acalanto no corpo do outro que lhe devolve a denuncia do afeto provedor. Como há corpos que se casam num sentir imediato...
Os últimos dias descansaram sufocados em violência natural, e sem colher dela o desespero coerente, assistiram a uma balada serena de sorrisos sutis, encharcados de paz. Atirada ao mar bravio, sua imobilidade salva, ergue-a e conduz os seus raios de energia ao abrigo caloroso de suas mais remanescentes lembranças. Como se os momentos em que verdadeiramente o amor foi compartilhado e vivido, brotado das duas fontes igualmente, saltassem num soprar profundo e inaugurasse um novo tempo real, constante agora para reviver. Fica nos arquivos da alma o que de fato explodiu em sinceridade – o início com o seu tato nos cabelos escuros de maciez revoltada; a boca do par, pura carne, enfeitando-a de completude.
Os últimos dias descansaram surpreendidos em violência fatal, como num teste de atenção para o que se vive, para o que se faz, para o se torna. Os olhos já não podem ver estes desencantos, estas negações... E não são as canções ganhadas a verdadeira inspiração: querer seguir neste não-pedir jamais, ver brotar sem fórmula outros desejos daquele que, sem conhecer a razão genuína, pode ganhar a sua palma. Aquele corpo quente e morto encaminhou o encontro da própria alma à ela, a única coisa que poderia surgir, enfim. Recebeu o abraço de saudade, ouviu a canção da flauta velha agora calada outra vez, para nunca mais servir. Ir em versos assim, escolher ficar a memória com o que é. O que não foi, o que não aconteceu e o que não se cumpriu das palavras antes ditas, nas primeiras falas dialogadas, não ficam. Levam e guardam, ambos seres, a certeza enfeitiçada de silêncio.

Tem um caminho levemente traçado ao lado. Uma melodia tocada por alguém à minha espera. Vou ao ritmo dessa tranqüilidade de tatear pétalas, o modo de preparar-me. Estou a chegar, sorria... Nós futuro. Prepararemos o jardim juntos.

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1 de maio de 2008

O virtual é, às vezes, o que se pode ter de mais real. O real pode nunca ter havido... O que restou-me foi viver. E vivo,
intransitivamente...
incansavelmente...
amando.

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Nós (Cegos)

eu aspirei amor no Reveillon
eu quis chuva, abraço, sons
participar das explosões e lua
eu planejei felicidade nua

eu quis o tempo avesso e espaço
quis cronômetro acelerado
os fins em início prolongados
eu quis mim e eu amarrados

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