8 de maio de 2008

Coisa Certa Não Tem Nome

"As pessoas, e as coisas, não são de verdade!
E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades?".
João Guimarães Rosa

Procurava, naquela pequena ocasião, separar as abtenções dos utensílios desaparecidos de valor, desfigurar as parecenças mundanas, catalogar as importâncias ficadas de cada recurso, libertar os pesos de si, limpar a presença essencial dos quereres somíticos. E o fez... Separou. Desfigurou. Catalogou. Libertou. Limpou. Nenhuma posse sobrou-lhe do resto que carregava. Pôde, enfim, ver-se sem as esmolas acumuladas das andanças, sem os pedaços 'contadores de outras histórias' que não a sua, sem os trambolhos, as bugigangas, as quinquilharias de problemas insolúveis. Fez caminhos longos e marcados pelas vestimentas remendadas, antes coloridas, impregnadas da poeira dos tempos desprovidos de começos. Quis ser só. Faltava-lhe aniquilar os pensamentos passados ali presentes. Aquelas imagens nos olhos da mente nunca lhe abraçaram, mas cumpriam morada na lembrança. Lutou e relutou, desgraçado, perdeu a guerrilha contra a própria consciência. Encontrava-se nu e entorpecido de desejos por coisas e pessoas e satisfações que jamais conheceu: nada e nem ninguém lhe foi de verdade, e quem consegue em existir, de fato, haver? Tanta recusa da vida doada... Coisa de ilusão. Tudo o que já lhe foi próximo e íntimo não se assemelhava aos anseios daquele, assim, tão pobre rico coração. E não entendia: terminava de morrer cada pedaço de alegria ao bater não-se-sabia-o-quê dentro do peito clamando por algo incógnito, uma saudade conhecida do desconhecido. Findou a ocasião pequena, mas de uma vida até se interromper. Reconheceu, por fim, que a saudade do que nunca se teve era justamente a vontade que se perdeu ao andarilhar as esquinas que nunca deixou de encontrar. Perdia para encontrar sustentação. Tornar-se apenas carne significou cobrir-se de substância presença em saudade.

3 comentários:

.raphael. disse...

Já está entre os mais lindo, pqp!
"terminava de morrer cada pedaço de alegria ao bater não-se-sabia-o-quê dentro do peito clamando por algo incógnito, uma saudade conhecida do desconhecido"

O que é isso??? Pelo amor de Deus viu! Já li 3 vezes! E ainda toca num dos assuntos q eu mais gosto, saudade!

A saudade torna a gente fraco, mas franco! :)

Beijos sempre!

Lu Martinelli disse...

AmigAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! Texto sem predicados, como você mesma diz!!!!!!!!!!!! Amei. Essa saudade antiga que você sente, saudade de lá, bem lá de atrás. E que, eu sei, te faz um bem danado, te faz ser uma das pessoas mais incríveis que eu conheço. E ainda bem que pouca gente percebe de verdade isso, assim você sempre terá o sossego que tanto merece e tem por perto quem só te reconhece. beijo da Lu, saudadeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!

Flávia disse...

Muda e nas nuvens.

tudo o que eu dissesse ficaria pequeno... mas eu entendi. E senti. E senti...

Sabe amor, né? O meu, seu.