19 de junho de 2008

Recolher o que Foi e Ser Posse

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"Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém."
Alberto Caeiro
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Soube que havia se feito presente de uma explosão comum, das quais ocorrem todos os instantes e isso ou aquilo, um ou outro nota. Quando ainda não estava aqui, a tona, era um todo inteiro sem história, uma pré-existencia invisível. Então, para ver-se como os que já ocupavam os espaços no chão, veio reiniciar-se desta vez em cacos, visto que a nova aparição e os meios para tal lhes exigiram dividir-se. Coisa ingrata esta de não ser visto quando se é de fato... Recriou-se numa explosão iluminada, tantos ele ali, aqui. E usou os cantos desconhecidos para alojar os pedaços de si e foi ter com a vida, esta metáfora. Para se ter vida, que outro caminho além de morte? Pois teve. Uma coisa-sem-nome de luz, e só. Ora vinha ele num pedaço, ora se fartava daquela falta de essência. Vinha sem saber, sentindo.
E assim que soube apertar os passos, nos descaminhos das regras de convivência, inevitável não cruzar outros. E cada cruzamento, uma nova explosão, tamanho era o choque entre as criaturas. Uma mistura de pedaços, e coisa mais inevitável era não deixar de se deixar para o outro, recolher o que passava a ser seu ali. Não era de lugar algum, vinha do nada e reunia uma vontade de tudo. Que sabia destas estradas? E os que já se localizavam, como participantes do meio, que orientação podiam oferecer? Já notou que quando se vê um imigrante, ninguém lhe oferece mapa? Pois por bem usou o traçado dos olhos, e a estrada desenhada nas palmas estavam ali, diante dos pedaços de pés. Já se viu assim? Estes cacos, esses e aqueles.
Nas curvas, ao resolver outra partilha, novos encontros tão díspares, e há memória de não deixá-los para passagem, apenas. Ele encontrou vários, mas um só que o fizesse retornar os olhos para o que já havia acontecido. Também dotada de faltas próprias, de cacos alheios, vinha outra desconhecida criatura, teu lado oposto, suplicando-lhe toque. No momento do encontro a visão dos cacos do eu-inteiro partindo-se; e em íntimas circunstâncias, a reunião dos pedaço, o único corpo, o mesmo anterior sem história, no escuro do antes de explodir. Entende quando se reconhece? Para oferecer os prêmios dessa caminhada em descoberta, tantas partes... Só surgiu luz do encontro, distinta e primária, começos de um todo composto num agora pequeno. Coisa que surgem em esquinas, essas viradas de estação, e dali continuar os seguires. Ao cumprir os planos de ir a frente, continuou ele a cruzar o espaço diante do tempo, e ela num ir para continuidade. Contudo, ficaram ambos com algo trocado do outro que sem o que se foi, não lhe seriam ternos. Foram-se, porque há de ser ir, mas foram sem.
Em passos mais pesados da parte ausente, o que restou a ele foi algo como sentir-se necessitado daquela presença de logo antes - eram as lacunas agora batizadas. Diante dessa lembrança, ir-se só pode-se perfeitamente sem satisfação. Ficar num completar instatâneo é uma meta para buscar e encerrar biografia.
Entedeu o meio de começar, virar pedaços para dar-se e recolher o que foi antes, para ser inteiro de verdade depois. Ele e ela juntos, um pronome. Querer até chegar-se ao fim da linha, reter os sis iniciais, do encontro que lhe fartou de alegria e tristeza, resultado de trocas, acolhidas e faltas, sobretudo, partilha de companhia como a primeira vez, na apresentação das sobras que carregam e são, a partir de então, construção de luz e glória, outro início e implosão.
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9 comentários:

.raphael. disse...

Esse é um daqueles seus textos que me deixam de boca aberta, mas enfim, com uma beleza sutíl no início e arrebatadora depois, é belo notar o quão importante são os pedaços que se deixam nos lugares, nas pessoas, nas memórias, mesmo que depois de uma explosão tanha-se fim a luz, a igualdade da troca. Passa-se o tempo, mas os pedaços são sempre lembrados, e tem uma palavra bonita pra definí-los, particularmente a mais bonita palavra da nossa língua: saudade!

É isso!

um beijo! :)

Beatriz disse...

É como se descobrir sem a outra metade... buscá-la em quantos cruzem o caminho e ao encontrá-la, vê-la tão grandiosa que nem se apercebe do que ela representa. E ao perceber, tentar a todo custo reter em si essa outra metade que se quer livre, apesar de desejar o 'encontro'. Metades que se digladiam em busca de um consenso que, se não chegado na primeira hora, vê o seu tempo passar. E lá se vão separados, metades que tinham tudo para se amoldar, cada um levando um pouco apenas daquilo que poderia tê-los completado.

Adorei o teu texto! Como todos os outros dos quais atualizei a leitura.

Ficam sorrisos, estrelas e flores a enfeitar os teus sonhos. Um beijo no coração!

Gleicy disse...

"Quem escreve constrói um castelo, e quem lê passa a habitá-lo"

ADORO-TE

BjO;)

Flávia disse...

A gente sempre se constrói desses cacos do outro... tolo quem pensa que nunca deixa nada e de si, e nada leva de alheio. Tolo quem crê que tolo é aquele que se deixa possuir, captar, carregar... e se furta o direito de nao ser apenas seu.

Delícia de texto.

Beijo e amor, flor ;)

LindaRê disse...

Lindo texto..
Me vi nele... Me distruí e agora estou a procura desse preenchimendo de lacunas...
Beijos

inutilia sapiens disse...

lindo, como de costume, não é?
ainda acompanhado de fernando pessoa e um de seus heterônimos, entre tantos!!!
heheh

besos.

L.H disse...

oii TIAAAA! (6)
quem é vivo sempre aparece neh? =D
...
vc nem apareceu aki na net heim!
=/ to esprando ate agr! aff! =/ ... rs

AMEI seu layout novo! liindo d+ ;)
mga bjOoOo

eu te amo!

Diogo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo disse...

Convenientes a implosão, os cruzamentos, os choques...
Convenientes, também, os improvisos dos traçados dos olhos e a "infundada" estrada traçada na mão...
Desconhecida criatura?
Ledo engano.
Nada tão conveniente quanto o suplício de toque deste que vinha do teu lado oposto, não é mesmo?
- Sabia!
...
- Só não sabia que há de se ir. Que inconveniência, não?!