10 de julho de 2008

Baile

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Tinha a mão na cintura e a outra em par com a nuca do moço de camisa azul cor-do-céu-quando-está-para-chover. O mesmo moço enlaçava a moça com seus braços longos, cobria as costas com a palma da mão gigante e a rodava feito moinho de vento, sinalizando tempestade. Em trovões foram embalsamando a ocasião. Já saiam do compasso quando deram conta do encontro. Perceberam a junção das próprias matérias, salpicadas de sons e palavras cantadas na raiz da audição. Mantinham-se calados, dando vez aos termos saltados dos olhos, fuzilantes da alma alheia ali. A saia florida feito primavera recém-chegada convidava os joelhos do moço ao encontro dela, num embalo lento, desenhando jardins no ar. A camisa quase-chuva alimentava as flores da saia, e de seus donos fluíam sensações de nova estação. Todo o instante fez-se de pequeninos momentos deles, bailarinos donos do espaço. A nova época anunciava outra combinação de cores, na mistura liquida trazida daquela percepção invadida nos moços juntos. Os fios que marcavam cada pele, resultado de outros bailes e outros pares (mas) inconjuntos, transportavam-se para além do corpo patrão, indo juntar-se às linhas do outro, como se quisessem não mais ter história mortal, como se quisessem continuar sem começo e nem fim. Cada linha fugia do corpo-morada e emparelhava-se à linha vizinha de frente. Em poucas horas incontadas, as epidermes da moça de flor e do moço de chuva findaram-se, ignorando as cores do cenário. Eternizaram-se, num bailar ininterrupto. A imagem em movimento inabalável tornou-se atração do salão, logo emoldurada. Cena de temporal.
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Flavinha, amiga-metade-minha, bailarina.
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15 comentários:

F. disse...

Esse texto é um dos meus preferidos :))

Ando sonhando com um baile assim... com essa dança ininterrupta de corpos de fios entrelaçados, deslizando suaves entre os compassos de um par de corações cantando tum-tá... tum-tá... tum-tá... tum-tá...

Emocionei-me muito com tua lembrança. Com tuas lembranças. Tua amizade, amiga-metade, me faz uma pessoa infinitamente melhor.

Amor e beijo - eternos.

LindaRê disse...

Esse texto é muito lindo!!
Queria eu um companheiro de dança nesse nível.

Beijos

Isaque Viana disse...

Eu adoro um bom desfecho. Prendo-me a uma frase, uma palavra. Adoro essas coisas. Adoro.
E esse final..
"tornou-se atração do salão, logo emoldurada. Cena de temporal."
Muito bacana mesmo!

Beijo grande de sempre.

Ricardo Jung disse...

é uma bela poesia em prosa

drenched of little flowers...


more flowers:

http://artepoiesis.blogspot.com/

Pavón disse...

Tenho que confessar que a imagem do balé foi reproduzida em minha mente em cada instante, em cada frase, cada palavra que escrevestes. Falar de amor em forma de balé, eterniza qualquer sentimento e o transporta para uma dança de almas na terra em que os pés não alcançam...

Realmente sublime seu texto. Parabens!!

Beijos pescadora!!

PS.
Será que o amor é um baliar de corpos, e a paixão é bateria de uma escola de samba? rss

Ígor Andrade disse...

O bom de ler teus textos e poemas é a velocidade com que reproduzo sentidos. Já que normalmente costumo pensar demais, para sentir algo numa leitura.
Meio lerdo eu mesmo, mas tu acelera o processo aqui.
Grande abraço!

Celi... disse...

Gostei do seu blog e do q escreve muito bom... C puder passa em casa
http://abelezadaarte.blogspot.com/
Abraços... Valeu...

.raphael. disse...

eu adoro esse texto pq ele me deixa sem palavras e sem elas fico a imaginar a cena, já isso vale a pena!

Beijos de sempre!

ramon disse...

como diria você, por um momento consegui visualizar a cena! =)
muito bonito..
bjO enorme meu anjo

O Equilibrador de Pratos disse...

Excelente blog. Acho que pode rolar uma interação bem legal entre nossos blogs: www.oequilibradordepratos.blogspot.com

- O Equilibrador de Pratos -
O que os homens pensam?

Relacionamentos. Teorias. Discussões. Comentários. Mulheres. Sexo. E pratos equilibrados em varinhas. Bem-vindo à vida real.

3 amigos (B. Sacamano, Hannibal e Jurandir, pseudônimos, claro) que resolveram fazer um blog tratando de assuntos que abordam o "Universo Homem + Mulher = Relacionamentos". Retrata todos assuntos citados acima, com textos bem escritos, humorados, ácidos, sarcásticos, irônicos e, sinceros ao extremo. Vale dar uma conferida. E que atire a primeira pedra quem não se identificar com algo. E por que o nome "O Equilibrador de Pratos"? Entre no blog e descubra. Será um "soco no rim". No bom sentido, é claro.

Diogo disse...

Ah..Mas assim?
Quero até aprender a dançar, agora!

Estava Perdida no Mar disse...

Eu até vontade de dançar.

O Profeta disse...

E este Sol impõe a claridade
Pôs no celeste a Lua a bocejar
Perdi a conta das estrelas no céu
Ergui-me em bicos para as contar


Voa comigo sobre as emoções

Boa semana

Doce beijo

Cineasta 81 disse...

Nossa, demais essa imagem da capa hein ?

Beatriz disse...

O que dizer dessa seqüência de imagens que vão tecendo versos e culminam na pura essência da Poesia? Apenas saborear cada instante em que as palavras vão se aninhando no olhar e infiltrando pela alma.

Ficam flores e estrelas tecendo magia no teu sonhar, um beijo no coração e muitos sorrisos nas horas dos teus dias.