19 de agosto de 2008

Menina ou Este Ser Enlaçado de Feminino

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Nasceu e foi pôr-se nesse viver de dádivas e suplícios. Foi ganhando tamanho, forma e consciência. O tempo todo mirando acima da própria cabeça aqueles que ditavam os deveres, salpicavam de direitos o limite da menina. E fazendo-se de concordar, seguia, límpida de pecados e encantada de querer. O caminho pôs-se a fazer curvas sinuosas, subidas e descidas refrescavam o ventre da menina disposta. Pouquíssimos detalhes a faziam diminuir o ritmo dos passos pesados. A cabeça levemente inclinada para a esquerda fazia questão de facilitar a chegada aos ouvidos dos passos do coração feroz dentro do peito, ansioso pelo instante que o fizesse acelerar, que o colocasse como para fora em batidas tremidas. Foi que se deu o momento de encarar as pessoas, até então no alto, de frente. E igualou-se de tarefas obrigatoriamente; viu as recompensas apenas num campo futuro, sem escolha, ainda, de colheita. As mãos sobre os olhos ensinaram-lhe à porta da reflexão, ao domínio dos pensamentos inoportunos e os transformou em novas possibilidades de causa. Percebeu o quanto foi levada às ações sem a mínima escolha, o quanto pôs-se a disposição de coisas e citações sem verdade, de histórias sem desfecho necessário, de is sem pingos. O quanto viu-se imposta a viver misérias, a mentir satisfação diante de sentimentos alheios pequenos e mesquinhos. Notou que as instruções vividas e nomeadas por todos nós 'experiências' não só nos moldam para outras tantas como a conduz a uma calmaria vasta e proporcional ao afeto quase infantil por quaisquer. Mentiram-lhe quando foi sincera, traíram-lhe quando foi fiel, enganaram-na quando perdoou e aceitou e concedeu créditos novatos. Restituída cada vez, embriagada de erros e intenções angelicais, pulou de ser menina. Ganhou sapiência além do que traz o instinto. Desafiou a lei da selva construída de pó e traçou as veredas de cimento. Firmou-se então. Destacou-se da solidão a antiga menina, implicou-lhe empreendedora de criações e puxou a espada. Foi saber de si, do que possuía, enfim, fora da realidade das horas contadas. Ao invés de querer encontrar no outro a imagem que a continuasse, foi buscar-se em si, naquilo que se guardou nos tempos em que existia efetivamente. Avançou, ouvindo-se. Colocou em uma mão o que lhe julgou importante, tão raro envolvido em três dos cinco dedos, e juntou em essencialidade. Criando a nacionalidade, encontrou a si: a melhor amiga que se tem desde sempre. A antes menina é a própria amiga dela.
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Às minhas pequenas que fui e vejo sendo por aí, nos olhos.
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5 comentários:

Ultra Violet disse...

realmente esse post foi um grande exercício lírico!

Bjs.

Flah disse...

Eu conheço essa menina... e cada vez que penso que conheço tudo, ela vem e me surpreende.

Amo vc. Perdoe o laconismo do comentário hoje, mas não tenho me dado muito bem com as palavras ultimamente.

Beijo, querida.

Beatriz disse...

Mais um texto que extasia, encanta, inebria, e nos faz reconhecer em ti uma escritora de primeira grandeza. É simplesmente mágico ler-te!

Flores, estrelas, sorrisos, e um beijo meu!

Ultra Violet disse...

Vc é paraense tb? jura? Tão raro encontrarmos paranseses na blogosfera. Bem, pelo menos eu acho.

Estou no Japão sim, estudando.

Bjs.

Daniel Luciano disse...

Lindo texto meu anjoooo!!!

Sempre poética e romântica né???

Meu beijo...