12 de setembro de 2008

e fugir ao Certo é conseguir



As pessoas, e as coisas, não são de verdade!
E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades?".
(ROSA, J. Guimarães. Grande Sertão: Veredas.)

Procurava, naquela pequena ocasião, separar as abtenções dos utensílios desaparecidos de valor, desfigurar as parecenças mundanas, catalogar as importâncias ficadas de cada recurso, libertar os pesos de si, limpar a presença essencial dos quereres somíticos. E o fez... Separou. Desfigurou. Catalogou. Libertou. Limpou. Nenhuma posse sobrou-lhe do resto que carregava. Pôde, enfim, ver-se sem as esmolas acumuladas das andanças, sem os pedaços 'contadores de outras histórias' que não a sua, sem os trambolhos, as bugigangas, as quinquilharias de problemas insolúveis. Fez caminhos longos e marcados pelas vestimentas remendadas, antes coloridas, impregnadas da poeira dos tempos desprovidos de começos. Quis ser só. Faltava-lhe, só, aniquilar os pensamentos passados ali presentes. Aquelas imagens nos olhos da mente nunca lhe abraçaram, mas cumpriam morada na lembrança. Lutou e relutou, desgraçado, perdeu a guerrilha contra a própria consciência. Encontrava-se nu e entorpecido de desejos por coisas e pessoas e satisfações que jamais conheceu. Tudo o que já lhe foi próximo e íntimo não se assemelhava aos anseios daquele, assim, tão pobre-rico coração. E não entendia: terminava de morrer cada pedaço de alegria ao bater não-se-sabia-o-quê dentro do peito clamando por algo incógnito, uma saudade conhecida do desconhecido ainda não vindo, o fato. Findou a ocasião pequena, mas de uma vida até se interromper. Reconheceu, por fim, que a saudade do que nunca se teve era justamente a vontade que se perdeu ao andarilhar as esquinas que nunca deixou de encontrar. Perdia para encontrar sustentação. Tornar-se apenas carne significou cobrir-se de substância presença em saudade.

10 comentários:

Kiara Guedes disse...

saudade das possibilidades ainda vindouras... ah que nao as tem?... nem nos conhecemos mas sinto saudade quando nao venho me atualizar de vc. Bjs

Leonardo Werneck disse...

saudade do que nunca teve... sei como.

LindaRê disse...

Queria eu me livrar de tudo, e tb vencer a saudade...

Beijos

Flavinha disse...

Meu coração anda betendo nesse clamar pelo incógnito. O que e consola, e me alegra, e me impulsiona, é saber que no dia da descoberta este coração baterá não em clamor, mas em agradecimento.

Amor, viu?

Beijos todos.

Ultra Violet disse...

A saudade do que nunca foi, enche de esperanças e sofrimento.

Belíssimo texto.

Bjs.

Isaque Viana disse...

ê poesia vestida de gente...

Isaque Viana disse...

Wires, wires...
Você lembrou certo... Isso mesmo!

Enquanto eu escrevia o post, ela tocava ao fundo. Gosto de fazer isso, escrever com uma trilha sonora.

berry,
Beijo de sempre.

Pavão de Nariz Laranja disse...

Talvez minha visão seja prática demais (e erronea), mas a saudade daquilo que nunca vivemos pode estar presente nas escolhas que nunca fizemos, nos caminhos que deixamos de trilhar e nos lugares que deixamos de visitar... saudosismo daquilo que poderia ser diferente do que temos hoje. Mas a vida nos ensina que a saudade daquilo que nunca vivemos pode ser o despertar de um desejo daquilo que queremos viver que contrasta com a idéia do nunca, tão temerosa e dolorida. Talvez o grande segredo, seja encontrar o "sempre" dentro de cada "nunca"...

Como faze-lo? Dizem que uma flor (especifica) pode mudar tudo... ;)

Beijos

Ácido Poético disse...

Olá, moça.

Eu não posso justificar um fato, pois é tanta correria, tanta viagem, tantos "tanta" que não me sobra tempo para comentar nos blogs que mais admiro. Mas, espero que você não esteja zangada e saiba que, mesmo eu não deixando minhas pegadas nos espaços-comentários de seus textos-poemas, estou sempre lendo e saboreando cada letra.

Bjks
Bruno

Beatriz disse...

Saudade daqui... atualizando a leitura e me encantando uma vez mais com teus escritos. Menina, como escreves bem!!! Que domínio tens da palavra, que bela construção de imagens!!! Adoro teu jeito único de colocar no papel a poesia que te inunda a alma.

Deste texto, destaco essa preciosidade: "Aquelas imagens nos olhos da mente nunca lhe abraçaram, mas cumpriam morada na lembrança".

Muito bom estar aqui, minha linda, muito bom!

Fica um ramalhete de violetas azuis enfeitando tua semana e um beijo no coração.