30 de outubro de 2008

Eu celebro

30 de outubro de 2008.

Você faria aniversário hoje. Eu faria o bolo recheado e coberto do teu doce preferido. Aquele doce que juntava nossas tardes e deixava nossos passos ritmados e freqüentes, todos num. Ajudaria a apagar as vinte e poucas velas dos teus anos de vida, que são acesos em mim, guardados vivos comigo. Pintaria teu nariz com o açúcar para devolver-me os teus beijos a marcar o meu rosto com a tua ternura. A tua vida continuada no que me inspira, nossas alegrias, e que eu peguei para mim nesse viver que é também. Você faria para mim o melhor desenho de abraço, a melhor arte, é certo. Eu grudaria teu pescoço num laço com os braços do meu corpo completo e sorriríamos... O teu sorriso de som da melhor melodia que eu pude ganhar e aprender e cantar em meus silêncios de flauta que só você reconheceu. O sorriso que levou de mim tua nova companheira eterna - esta vida que é além deste chão - mas que insisto em dar-te hoje, presa aqui, porque é ainda teu aniversário, e eu sei que te alcanço nessa tua morada protetora. Eu sei, você celebra comigo o nascer que foi teu de antes, o meu nascer de plenitude depois. Nascidos fomos, não é? Para estarmos de frente, assim, como te tenho nas lembranças dos sentidos. Ocuparia eu a tua mão de cá, os meus olhos fitariam repetidamente os caminhos junto aos teus, meu horizonte azul sem fim. E a gente seguiria a outras comemorações. Mas... Tão rápido teus gestos enfeitaram o ar, tão exato foi o tempo, tão para sempre levou de mim meu melhor amor de carne que me restou apenas celebrar os sentimentos imortais e as lágrimas que já não são de perda. O amor dado, multiplicado, lotado. Porque você faz aniversário hoje, meu amor, dentro de mim.

"É pena quase não poder ficar
És quente quando a luz te traz
Quase te vi, amor
Quase nasci sem ti
Quase morri
Dentro de mim
Ficas dentro de mim
Por dentro de mim
Estás dentro de mim"
Toranja

Leia Mais

28 de outubro de 2008

Enganos peculiares às verdades

28 de outubro de 2008.

“Me interessam
Pequenas poções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam”
Cazuza


Engana-me, que eu gosto.

Engana-me, que eu gosto do contorno sem traço que o engano faz de ti. E continue, não pare não. Porque é tanto engano que eu já não me faço a mesma sem eles. Eu faço-me numa pluralidade minha de tua inexistência, singular.

Engana-me, continue. Do engano consciente retenho os meus desenhos de boca e saio aí, a oferecê-los, cheios de sons e dança para quem, assim, aproxima-se dos nasceres exalantes do que, vez por outra, invento de mim. Os passos marcados da língua que carrego só farão derreter os meus segredos a quem os perceber. Mas são só desenhos, devolvem engano também a minha mais pura realidade.

Engana-me, porque é assim que eu consigo enrijecer o tanto de vida que pulsa nestas pernas, que abrem e fecham, e abrem e fecham o meu exercício que é caminho sem chance do teu alcance. Eu sou com verdade que ninguém pode. Eu tenho vida rígida, essa fortaleza na penumbra das mentiras que contam os dias e que eu consigo responder com as verdades, minhas posses, digeridas dos afagos amargos da noite.

Engana-me, e não tenha pressa de possuir-me. Possuiria o que existe, enfim, aqui, do verbo cujo tempo é futuro, mas guardo-o em um dos meus pretéritos. Engano presente, por enquanto e talvez.

Leia Mais

26 de outubro de 2008

as estações minhas

26 de outubro de 2008.

"Encarar a vida de frente.
Encarar sempre a vida de frente e conhecê-la como ela é.
Enfim, conhecê-la.
Amá-la pelo que ela é e depois, descartá-la.”
Virginia Woolf.


Os verões das chuvas de todos os dias.
Os invernos dos dias inteiros de chuva.
Estas ações: as Minhas Estações.

Leia Mais

23 de outubro de 2008

agora, essa hora

23 de outubro de 2008.


"Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas a experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram."
João Guimarães Rosa


sons dos pingos das águas verticais.
o milagre que eu sinto para ver, e sim
meu órgão batendo, batendo, batendo...

(os gestos)

Leia Mais

19 de outubro de 2008

Obra-prima

19 de outubro de 2008.


"O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua..."

Mário Quintana

"..."

Reticências de F., amiga-metade-minha - que gritam-me versos.

Quem dera página amarelada de citações românticas
Quem dera marcada e envelhecida rima parnasiana
Quem dera o encontro à realidade mais fictícia que a arte
Ostento de luz, ciranda.

Nasceria desse bucolismo derradeiro
Viveria cada passo um compasso musical
Morreria em palmas marítimas, solo salgado
Flutuante, doce angelical.

Fosse embaralhada poesia sublime...
Sobra em resto,
Resultado final.

Leia Mais

15 de outubro de 2008

ao simples das coisas

15 de outubro de 2008.

"Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela."
Alberto Caeiro

Pontuar meus sonhos no espaço dos sonhos.
No real, eu não domino o nascer e o morrer do sol. Nem da lua. Nem você que sou, este verbo sem conjugações.

Dizer que amo para que o outro sinta, e não diga.
Dos amores gratuitos, os que eu acredito. E falo sem usar signo. Porque quando digo, fujo e guardo. Amo você fica ali, jogado, de canto.

Terminar meus dias de ferro, toda a carne de fora (pra dentro).
Os dias que não terminam e são efêmeros, além da carne que usurpam de mim. E o tempo; ah, o tempo quase senhor...

Sentir a água a escorrer por mim, e em mim perpetuar a escassez de vazio.
Pensas que vago assim, como quem não atravessa? Atravesso enraizando, mesmo com os pés fora do caminho óbvio. Quando não vou, já estou lá. Se vou, faça o outro o meu chegar.

Ver, só.
O maior de todos. Deixo para tantas ações o meu completar. Finalizo os sins; recomeço, nova, de todos os fins.

Leia Mais

12 de outubro de 2008

ladainha

13 de outubro de 2008.

Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for inteiro, rejeito partes, não às metades, dispenso vaidades. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for agora, nunca mais, nada atrás, encerro o cais. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for sublime, eu desço meu salto, jogo tudo pro alto, retomo-me de assalto. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for fácil, simplifico, musifico, edifico. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for aceita, dane-se o que pareça, que desfaleça, me esqueça. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for para mim, para o outro, para o resto, qualquer fim. Eu tenho urgência. Necessito contágio imediato. Se não for, é. Reticências...
"E quem quer saber?
A vida não pára.
A vida é tão rara..."
Lenine

Leia Mais

6 de outubro de 2008

PARA:

06 de outubro de 2008

“And I wanna walk with you
On a cloudy day
In fields where the yellow grass growsknee-high
So, won't you try to come?”
(Norah Jones – Come away with me)
Venha até a mim.
Não tenha medo...

Meus pensamentos ganharam as cores de quando a ternura compõe os espaços, e preenche os impérios de objeções que o meu coração andou reescrevendo. Ele escreve, sem letra, o som da emissão dos calores, as minhas súplicas. Refaz meus quereres e adivinha o humano que, de fato, mora em minha raiz. E quer, a humanidade que é tua, meu coração iletrado.

Eu estou nascendo outra vez, primeira, um lar aberto. Eu nasço coisas que se vão à direção deste caminho de ar para usufruir os teus risos nos meus sem fim. Passo a passo, no ritmo do que faria minha voz com a presença dos teus ouvidos, do dizer a origem do sentimento recente-companheiro.

Tanto eu já quis... Que já não faço de desejar, mas de cumprir as tarefas de te cuidar que meus olhos assinaram e assumiram não mais que antes, para logo sempre. Eu te estendo a mão e firmo minha alma, como quem segura com a fortaleza do corpo e o coração.

Agora estou neste instante de poder de mim, em que revivo, ininterruptamente, o mesmo futuro criado nos verões, e cada sorriso depois das satisfações da pele, o sangue transbordando as veias e alagando estes membros pra tocar o teu abraço.

Nós da gente, este meu. O medo.
Venha.

Leia Mais

1 de outubro de 2008

estampada Alma

01 de outubro de 2008


a minh'alma resolveu se vestir
cansou-se de andar nua por aí
nestes passos largos em descompasso
azar ao acaso foi o cumprir

agora quer flores todas, um maço
girando o vestido rodado - laço
estampar meus caminhos anis
a minh'alma resolveu se vestir

porque nus são meus senhores do sentir;
e a Alma se veste de sorrisos de mim.

Leia Mais