10 de novembro de 2008

O que sou é anatômico

10 de novembro de 2008.

Eu sou um metro e sessenta e dois centímetros de coração imprimindo tempo. Um tempo que flui os sentimentos na miudez de minhas curvas. Um metro e sessenta e dois centímetros pesados da alma encaminhadora de mim.
Tenho cabelos, nem curtos, nem longos, algo assim, ainda percorrendo trajetória - que vez por outra eu cerro para recomeçar antes do fim o meu continuar que não tem margem. Os ombros de marcas das mudanças que carreguei; minha mochila nas costas tombada de sonhos nos lares por onde passei. Nos abraços que ensaio encontro meus braços dotados de pressa, os quais chegam às minhas mãos pequenas, de dedos estendidos, que alargam notas e cuidam do meu tamanho ao insistirem uns caracóis. O carinho que devo a mim. E em suas linhas, três ou quatro letras penduradas e toda a significância do alfabeto. Os caminhos possíveis riscado nas palmas, curtos, um horizonte inteiro.
Surgem no peito as minhas sensações, o meus quereres, as minhas ternuras tatuadas e saltadas das golas dos vestidos trocados dos dias. Minha barriga que abriga as borboletas multicoloridas, campo em que sinto invernos. Mas o meu umbigo alimenta-me do calor de fora. E a cintura segura a minha espada e o meu cansaço.
As corridas preparam minhas pernas para as urgências do viver. Correm todas as tardes, encurtam distâncias, anseiam o aconchego das noites para visitarem o ar. E por mais mania de calçar os pés assumo, mais nus continuam quando o seguir é para encontro. Pés encontram, sempre. Meus membros curtos, esta estatura, longas intenções.
Eu sou partes contadas que minha alma une, e encaminha. Não resisto a este caber que é intenso das coisas abstratas essenciais: dominam meu um metro e sessenta e dois centímetros de tempo crescido, que eu espero encaixe e não desejo perder mais.

13 comentários:

Mai disse...

As mãos do poeta criam mundos. Agora mesmo te vi porque criaste a ti mesma e, assim te descobri como o cego que percebe aquilo que não vê. Pude te conhecer através da linguagem poética em ti e por ti inspiradas.
Estou maravilhada.
Grata pela visita.
Abraços.

Sunflower disse...

Engraçado,né? não o tamanho, mas a dimensão das coisas. Meu nariz, não é muito grande mas tem tanto choro perdido ali dentro. Eu não consigo achar, e outra, como é que de vez em quando acho que tem um oceano dentro do meu peito? Sinto que dá pra escutar o barulho do mar ao invés de tum tum às vezes.

beijas

rogeriomarcal disse...

Oi Patrícia.

Mais uma vez, adorei seu texto. Lindo, sutil, autobiográfico, sem ser explícito. Sincero! =)

Adorei mesmo, gostei muito.

E valeu pela visita e comentário no meu blog.

Beijo e ótima semana.

meus instantes e momentos disse...

Agradecendo tua visita, apareça sempre é bom ver vc por lá.
Muito bom esse seu post, um texto com cara de poema, muito bom.
Queria ter secrito isso.
tenha uma linda semana, sempre

Maurizio

Beatriz disse...

Um corpo que brinca entre versos ou versos que fazem nascer poesia num corpo de partes contadas que une e encaminha uma alma tão delicadamente bela! Tens, amiga, o dom de nos mostrar que a poesia muitas vezes está aqui pertinho, ao alcance de nossas mãos...

Te deixo um mimoso raio de sol que está a brincar entre as borboletas do meu jardim, e também um beijo no teu olhar tão encantado dessa poesia doce, delicada, linda!

(quando eu crescer quero fazer poesia que nem você... rs)

Gabriele Fidalgo disse...

Minha cintura carrega o desenhos feitos por amores passados. Idéias tatoadas em partes claras, de formas definitivas.

Quie lindo, patrícia!

Beijos. :*

Nem Li disse...

Um metro e sessenta e dois bem complexo.

Luciana Andrade disse...

E as partes são sempre muito interessantes...Essas partes de urgência de viver

.raphael. disse...

é, definições bem complexas! hehe Mas sabe que o bom dessa pessoa definida ai, é que ela sabe viver! Há intensidade em certas coisas! E toda vez que eu ouço a palavra horizonte eu lembro dela! hehe

Beijão cabeção!

Eurico disse...

Puxa vida!!! Quanta poesia em uma reflexão sobre si mesma!
Valeu a pena vir até aqui!
Abraço fraterno.

j. disse...

Você é o um metro de sessenta e dois centímetros mais lindo que eu conheci na minha vida.

Leonardo Werneck disse...

que definição bonita!

Gostei muito.

Beijos

Letícia disse...

pois é.
acho que devemos prestar mais atenção no que esse um metro e sessenta e dois centimetros pode fazar a uma pessoa :D
por incrivel que pareça, estou me sentindo a vontade e bem em falar aqui, pois essa forma de encarar as coisas parece-me familiar.