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"De tanto eu te falar
Você subverteu o que era um sentimento e assim
Fez dele razão
Pra se perder no abismo que é pensar e sentir."
Los Hermanos
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Não tinha mais nada que fazer ali, e insistia, a moça-menina, em ter sobrenome. Lembrava-se dos nascimentos, das moradas, dos afagos adultos... e o que adiantavam? Toda ligação parecia-lhe consideração sem fundamento. Os olhos eram do pai, mas e os passos? As mãos da mãe, mas e as idéias? Bem se via numa unicidade real e assustadora. Como se fosse parida sem passado, veio este ser nascer em plena mocidade.
Por mais comum que fosse, ou natural, seja o que era ou não era, ela fingia imperceber certas diferenças quando tecia comparações. Os arredores eram preenchidos por outras moças tais quais, que questionar inoportuno? Não havia quem o sumisse. E participava dos grupos sem o coração bater; frequentava os bailes e aceitava os convites para dançar sem sorrir; os sins mais próximos da negação. E não era por mal: calara-se por todo tempo, numa ternura aparente que sufocava um desejo sem nome instintivo. A moça vivera sem se possuir.
Num desses propósitos duvidáveis, deu que fez-se dona de si e, forçada a interromper tradição, abriu os braços aos quilômetros. Por conta de triz, quase deu voz a um medo infante, desconhecido - quando pôde ter medo? Desejava manter contato, efemeridade dessa vida - era coisa de pensar nos entes, nada mais - , porque sentir-se inclusa era ilusão de dispensar recusa. O que ocorre de nós após chegar nesta terra senão assumir ser um corpo, apenas? Tinha a matéria ainda pequena, sem cortes, sem marcas, sem passado. Limpa, agora só moça, ansiosa por incorporar as futuras tatuagens, aqueles sinais das sensações da visão.
Corria ela pelas cidades, conhecia bairros, calçadas, gente e praças, e nada de possuir repouso; percorreu colégios, internos, molduras, tanta força norteada pela intuição. E de que valia? Os protocolos estavam ali para serem seguidos, as formações já lhe traziam diplomas, a moça assumira um dever e o cumpria. De todas as ausências, encontrava-se nas faltas alheias. E num dividir-se genuíno, fez os anos a década a ensinar-lhe a dar aos homens o que ela, de fato, mais necessitava. Aprendeu o sentido de amar praticando sentimento. Doação em doação, foi ganhando os sentires.
Pois já se fazia sustentável, já ganhava porções de liberdade, e sem ter as mãos trancadas em outras, que se podia praticar a se entregar à única vontade profunda oriunda da essencia? Ah, moça sem sobrenome, que serventia podia lhe trazer qualquer história? Que razão possuía cada anedota, antes angústia, depois alívio, vivida nesta juventude contraditória? Moça responsável por toda uma família guardada em volta do peito, idealizada pela semente que poderia brotar em cada afeto dedicado... E não é que não fosse, era para quem recebia. Moça, moça... tinha em quem conhecia o maior apreço na hora de chegada, a maior compreensão no instante de saída.
E percorrendo os entendimentos, lenta feito barco sem motor, ia a criatura desbravando com a lembrança os caminhos já percorridos e inventando outros rumos com os olhos que aprendiam a ler palavras nunca ditas, nunca escritas. Moça pesada de abraços sinceros, ganhou a forma de mulher provedora, e encerrando o suprir de egos distraídos, desembrulhou as asas gigantes, costuradas pelos afazeres dos dias de lágrimas solitários, e as vestiu. Pois o momento de mudar-se findamente lhe veio, e a moça-mulher voou para o canto em que finalmente podia usar a coragem para existir.
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