26 de janeiro de 2009

Palavra com som de ser

“Eu conheço esse outro mundo
Onde o tempo não dissolve
Eu te conquisto sempre
Você sempre me comove”



Os dedos dele iam compondo sons. Os dedos dele não sabiam outro caminho. Iam, não sabiam, num carregado de chegar. O importante é que eram os dedos dele, e aí, qualquer som viraria o som que deveria ser.
Foi culpa da palavra: bateu à porta e num sem-conter de mutar, virou melodia.

Som lá, palavras vertendo caladas aqui. Toque no aqui que somos dois, um. Porque é desde o fim, que foi começo, uma partilha de sensações que resumiriam risos assim de bailar a voz. Retomar os sons, riso também. Se som e palavra que grita um silêncio, singelidade fosse outro mundo que fizemos para compartilhar companhia. A natureza do som e outra atmosfera numa impresença típica – verdade, mentira. O que faz-se de importar? A face de todos os sons dele que enraízam trilha destas palavras modestas, dedico uns instantes de todo carinho. Os dedos dele compondo sons, os meus num frenético produzir de espelhos, num corte, num caçar de encontro. Típico, porque nem precisa combinar – o abraço é o gesto-som-palavra nosso preferido.

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20 de janeiro de 2009

De onde havíamos parado

Eu sei. Eu reconheci.

Aqui, bem aqui.

Eu deixo meus racunhos para trás - tantas vezes ais, tantos tais - e decido, de fim, unir meus passos à escrita maior, apurada às linhas de estradas e horizontes, todos os meus sentires, quaisquer fontes, e findar meu encontro a um eu que está agora inaugurando outras posses e faz-se perante. Numa entrega íntegra e completa ao que deseja minha face dotada de luz recém chegada e que você carrega assim, como quem distribui pureza, ternura e tantas porções de completude, um fardo pesado, e todo pintado com o mesmo azul do céu de chuva daquele dia que te trouxe, de estórias a começar e me convida a contar também. Eu deixo e deixo-me, o seguir.

Só peço que retire de mim as sobras de medo, as lamentações pelo tempo que já correu com tua ausência, e instale os degraus de afeto para alcançar a tua altura. Pois desço estas matérias criadas e inspiradas por outras mãos e coloco-me a fazer contigo o que tanto espera e clama em meu peito, também no teu, - muitas vidas, agora única - e chamamos de união de sentimentos.

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17 de janeiro de 2009

(Auto)Desconhecimento

Espelho, outra vez.

Não vê que os atos todos que me fazem perseguir não me apetecem ou oficializam o ser que mora em mim? Eu sou feita de um segredo, que na verdade é teu: você não me conhece. E enquanto eu sou humana, tenho um corpo que alimenta e esquenta uns pensamentos... E não existe silêncio que os diga - você está surdo, cego e mudo, há tempos já não me responde.

E eu vou escancarar, pois tua desorientação nova te faz ter na memória aquela minha imagem primeira, de quando eu nascia no meio do dia. Teus olhos fechados e confiantes te mostram o que eu não sou. É tanto que este meu saber, que é você não me saber, faz-me ter-te um ter desconhecido. Se eu não sou teu íntimo, como faço-me imprescindível?

(Vire-se. E vá correndo.)

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14 de janeiro de 2009

Cotidiano

Ampliar o horizonte dos olhos.


Adentrar
o
horizonte
nos
olhos.

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10 de janeiro de 2009

Sobres as voltas

Para Murilo, e para mim.

Minhas chegadas são voltas e possuem um cheiro estranho e branco de partidas. Limpas das ordens que desvio, dotadas de vontades únicas e decifradoras do meu íntimo, oblíquas e deslocadas dos limites impostos pelas horas quando absorvidas na luz dos dias. A luz dos dias e as suas margens estreitas... E na escuridão de temporais rápidos como os que propiciam minhas fugas que assumo, eu ganho o tamanho que gritam meus sentimentos em implosões silenciosas. Porque no escuro eu ganho asas e não há velocidade que me assassine. E mesmo que eu não enxergue os atalhos, sei por onde seguir nas idas todas vindas de mim a mim, sempre.
Não me interessam certas evidências. Se faço das chegadas sem saídas minhas partidas, as voltas são uma porção de nortes amarrados ao peito, encantando as paisagens cada vez menos conhecidas até serem tomadas por um súbito de ineditismo. Pensamentos às voltas em igualdade surpreendente. Se vão sem me fazer ausências, num impulso em estabelecer recomeços, estes términos emendados. Olho-me em reflexos estalados: os temporais, as chegadas, as voltas, as partidas.
Faço eu aqui com os pés no mesmo chão. Eu permaneço apenas o que não me interessa carregar. Demais, o que, de fato, me conjuga faz viagem sem passagem. Torno-me presente, em frente, com a experiência quase incerta de uma vida a ser vivida sem antes ou depois.

"Poço lado e sujo, cria do descaso
Alimentando folhas em branco e preto
Outra epidemia desanima quem convive com medo
Botões e atalhos amplificam a distância
E a preguiça de estar lado a lado veste a armadura
Esse é o poder solitário"
ORappa

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