"No escuro e vendo,
No escuro e vendo"
(Arnaldo Antunes)
Meu peito vestido de vermelho, todo paixão, estruturou meus braços para garantir um abraço entrelaçado, aquele teu guardado sob as minhas medidas. Você garantiu-me passeios, mãos gerando calor, a cama dividida; um universo de suspiros, alívios e devoção. Então, enfeitei esta composição e estampei raros perfumes, tantas harmonias. Todas as ações conjugadas, primeira pessoa urgente. E reconheci, enfim, as palavras saídas com o teu sotaque e plantei flores rodoviárias.
Foi quando mirei o que estava acima dos meus faróis, um ar sem portões. Vi-me sem concordar tantos predicativos – os passeios e meus sorrisos, as mãos – minha e tua -, a cama e a vida inteira unidas. Limpa, nua, tua. Mas – e não é? – o querer só vale-se dos contratos e sobrenomes, os tais endereços... E, visto que não inaugurei nascimentos, outras presenças não cabiam.
Como já não caibo mais agora.
Ou eu não era, não fui. Não devo ser. Não serei, certo, pra você. E aí resta-me fechar os olhos: ao sorrir no escuro tateio as distâncias exatas e contadas. E encontro-me.
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