23 de janeiro de 2010

Homem-Palavra

O homem tinha todas as palavras
Mas só uma de cada.
Uma vez pronunciada
Era palavra do catálogo arrancada.

O homem não queria
Ter sua fortuna vazia.
Pouco importava ouro ou prataria:
Interior rico de palavra se fazia.

O homem com cautela seguia
Em passos largos e alegria;
A boca fechada, sua sina,
Nenhuma palavra dizia.

O homem crê na economia
E muito dizer não valia
Porque palavra dita demais
É palavra vazia.

Pobre homem mal sabia
Que palavra falada não sumia.
Solta no ar reaparecia
Para dentro do outro, magia.

Ah, homem, quanta palavra guardada
Teu silêncio não calava
Continha tudo e estampava
Todos os sentidos dessa vida larga.

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16 de janeiro de 2010

Mente Vazia Mente

"Tomei a decisão de fingir que todas as coisas que até então haviam entrado na minha mente não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos."
René Descartes


Dia desse eu esvaziei a mente.
Mentira, preenchi de espaço
Criei um palco
De pensamentos insólidos
Pedindo colo
Sem definições ou jogos contrários.

Minha mente vazia
Não finge condição.
Está aberta e soa limpa,
Imaginação.

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9 de janeiro de 2010

No Auge do Verão

São nesses dias de calor e colares que a primavera se esgota nas cores das horas.

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1 de janeiro de 2010

Carta para Mim

"Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!"
Mário Quintana



Cara Patrícia,

Um ano acabou, outro começou e você já está acostumada com esses ciclos não só dos anos, mas com tudo que sofre processos de nascer e morrer. E você também conhece e sabe que nascer e morrer não compõem tantas importâncias; o meio ocupa esse resto que é recheio vivo de cores e sons, cheiros, presenças e saudades. Então, você se cumpre nele: vazio ou cheio do que for; porque ora vazio, cheio; ora cheio, vazio. E mesmo que o antes morra para o próximo nascer e o que morre não retorna, é preciso seguir num fazer perpétuo único e exclusivo para você mesma. Aí, você é presente cheio para quem te tem amor.

Serão, teoricamente, trezentos e sessenta e cinco dias de muita coragem. Uns sem existir, outros sem terminar. Tenha coragem e só. Porque serão fadados, moça, e só você pode resgatá-los e dar-lhes aquela plenitude de que tanto precisam. Não há deuses, anjos, nem santos para te protegerem ou perdoarem o teu pecado de sentir e pensar esse mundo sem precisos adjetivos. Há você com um coração que te acolhe inteira.

Não adiantará evitar más notícias, nem querer estender as boas; não fugirá dos banhos frios, nem dos tempestivos momentos; contará com os mesmos desejos desenfreados e as crenças fulgazes. As cicatrizes continuarão retendo pouca pele, para não dizer nenhuma. As lembranças, ah, todas! Conseguirá entender que os poucos amigos que restaram, na verdade, não passaram por nenhum processo seletivo. Simplesmente sempre estiveram contigo. Estiveram, estão e estarão. Pode o tempo imperar, quando o telefone tocar, o ‘alô’ vai ser na maior sensação de que os papos são diários. Recorda-se da experiência na semana passada? Milagrosamente os anos passam a frações de segundos quando as pessoas ocupam a categoria de amigos teus.

A Solidão. Notou o quanto ela é precisa, mal interpretada, desprezada e essencialmente necessária para todos os exercícios? Pois não importa a intensidade dos abraços, eles só funcionam com a tua intenção de abrir o peito e dirigir-se. Vá! Faça o que for com o outro: é você fazendo também. E é bonito, sim; é muito bonito quando se tem alguém para cumprir o mesmo. Também igualmente lindo quando há um disposto. Se é você, idem. Seja, mesmo solitária.

Por fim, amor que é reunião de tudo, apesar de nada. Você teve tanto amor negado, tanto... Por vezes negou em formas iguais ou diferentes por conta de mais amor... Mas mesmo assim, amor em todas as formas, em todos os tempos, em todas as vozes. Não conjugue outro senão amparado por este. Enfrente as recusas, infinitas, e firme os olhos, avante. Não precisa manter os passos compassados – desvie e dance, não se preocupe. Só não esqueça as rimas.


No mais, além. Conto e conte consigo.
Você mesma diz que o bonito é que tudo é lírico...
E é.

Até.

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