1 de janeiro de 2010

Carta para Mim

"Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!"
Mário Quintana



Cara Patrícia,

Um ano acabou, outro começou e você já está acostumada com esses ciclos não só dos anos, mas com tudo que sofre processos de nascer e morrer. E você também conhece e sabe que nascer e morrer não compõem tantas importâncias; o meio ocupa esse resto que é recheio vivo de cores e sons, cheiros, presenças e saudades. Então, você se cumpre nele: vazio ou cheio do que for; porque ora vazio, cheio; ora cheio, vazio. E mesmo que o antes morra para o próximo nascer e o que morre não retorna, é preciso seguir num fazer perpétuo único e exclusivo para você mesma. Aí, você é presente cheio para quem te tem amor.

Serão, teoricamente, trezentos e sessenta e cinco dias de muita coragem. Uns sem existir, outros sem terminar. Tenha coragem e só. Porque serão fadados, moça, e só você pode resgatá-los e dar-lhes aquela plenitude de que tanto precisam. Não há deuses, anjos, nem santos para te protegerem ou perdoarem o teu pecado de sentir e pensar esse mundo sem precisos adjetivos. Há você com um coração que te acolhe inteira.

Não adiantará evitar más notícias, nem querer estender as boas; não fugirá dos banhos frios, nem dos tempestivos momentos; contará com os mesmos desejos desenfreados e as crenças fulgazes. As cicatrizes continuarão retendo pouca pele, para não dizer nenhuma. As lembranças, ah, todas! Conseguirá entender que os poucos amigos que restaram, na verdade, não passaram por nenhum processo seletivo. Simplesmente sempre estiveram contigo. Estiveram, estão e estarão. Pode o tempo imperar, quando o telefone tocar, o ‘alô’ vai ser na maior sensação de que os papos são diários. Recorda-se da experiência na semana passada? Milagrosamente os anos passam a frações de segundos quando as pessoas ocupam a categoria de amigos teus.

A Solidão. Notou o quanto ela é precisa, mal interpretada, desprezada e essencialmente necessária para todos os exercícios? Pois não importa a intensidade dos abraços, eles só funcionam com a tua intenção de abrir o peito e dirigir-se. Vá! Faça o que for com o outro: é você fazendo também. E é bonito, sim; é muito bonito quando se tem alguém para cumprir o mesmo. Também igualmente lindo quando há um disposto. Se é você, idem. Seja, mesmo solitária.

Por fim, amor que é reunião de tudo, apesar de nada. Você teve tanto amor negado, tanto... Por vezes negou em formas iguais ou diferentes por conta de mais amor... Mas mesmo assim, amor em todas as formas, em todos os tempos, em todas as vozes. Não conjugue outro senão amparado por este. Enfrente as recusas, infinitas, e firme os olhos, avante. Não precisa manter os passos compassados – desvie e dance, não se preocupe. Só não esqueça as rimas.


No mais, além. Conto e conte consigo.
Você mesma diz que o bonito é que tudo é lírico...
E é.

Até.

4 comentários:

monique disse...

Patrícia, adorei essa "Carta para mim", achei muito legal mesmo *-*.
Eu adoroo seus textos =)

Menina Misteriosa disse...

Quem dera eu pudesse encontrar uma carta dessas... preciso ler e reler estas palavras... para não esquecer de ter sempre coragem e contar apenas comigo!

Gostei daqui!
Parabéns, tens um talento enorme com as palavras!

[ rod ] ® disse...

A expressão do que sentis é tão real quanto humana... e nela se faz e se porta todos os anseios deste que será o ano das realizações... sem utopia ou devaneios. Ama-se e amo-te. Bjs moça.

Fabio Rocha disse...

Nossa, gostei de sua escrita! Beijos