23 de janeiro de 2010

Homem-Palavra

O homem tinha todas as palavras
Mas só uma de cada.
Uma vez pronunciada
Era palavra do catálogo arrancada.

O homem não queria
Ter sua fortuna vazia.
Pouco importava ouro ou prataria:
Interior rico de palavra se fazia.

O homem com cautela seguia
Em passos largos e alegria;
A boca fechada, sua sina,
Nenhuma palavra dizia.

O homem crê na economia
E muito dizer não valia
Porque palavra dita demais
É palavra vazia.

Pobre homem mal sabia
Que palavra falada não sumia.
Solta no ar reaparecia
Para dentro do outro, magia.

Ah, homem, quanta palavra guardada
Teu silêncio não calava
Continha tudo e estampava
Todos os sentidos dessa vida larga.

8 comentários:

Julia disse...

Lindo o poema... e diferente do que vc costuma escrever ( pelo menos das ultimas coisas x) )


Sobre as palavras...

Sílaba por sílaba. Letra por letra. Quero saber cada traço delas molhado pela minha saliva, tocando o céu da minha boca. Engoli-las agonizantes e senti-las vivas, digeri-las uma por uma.


em mim estariam

em mim seriam

Seriam minhas em todas as suas mil faces.

E eu preencheria todos os brancos angustiantes ao meu redor porque a minha paz não é branca, ela é da cor de todas as palavras.

Julia disse...

* de todas as palavras
ditas, escritas
de todas as palavras versos

Isaque Viana disse...

Pati... nessa você se superou.
Lindo.

Graça Carpes disse...

Parece com um caminhante, o homem.
:)

Kiara Guedes disse...

As palavras que reaparecem no "seu dentro" são mesmo magia, sempre.

[ rod ] ® disse...

O homem é um ser grande. Vivo pode tudo. Morto eterniza-se! bjs moça.

Monday disse...

Ilusões ocorrem e, com elas, certos silêncios.

Nada que um som inesperado não faça despertar e se possa abrir a boca a revelar a alma e o coração ...

.raphael. disse...

Não são as palavras as que têm mais poder? São!

Não o homem! Por vezes, até o silêncio tem mais força!

beijos de sempre!