31 de julho de 2010

Baile

Tinha a mão na cintura e a outra em par com a nuca do moço de camisa azul cor-do-céu-quando-está-para-chover. O mesmo moço enlaçava a moça com seus braços longos, cobria as costas com a palma da mão gigante e a rodava feito moinho de vento, sinalizando tempestade. Em trovões, foram embalsamando a ocasião. Já saiam do compasso quando deram conta do encontro. Perceberam a junção das próprias matérias salpicadas de sons e palavras cantadas na raiz da audição. Mantinham-se calados, dando vez aos termos saltados dos olhos, fuzilantes da alma alheia ali. A saia florida feito primavera recém-chegada convidava os joelhos do moço ao encontro dela, num embalo lento, desenhando jardins no ar. A camisa quase-chuva alimentava as flores da saia, e de seus donos fluíam sensações de nova estação. Todo o instante fez-se de pequeninos momentos deles, bailarinos donos do espaço. A nova época anunciava outra combinação de cores, na mistura líquida trazida daquela percepção invadida nos moços juntos. Os fios que marcavam cada pele, resultado de outros bailes e outros pares (mas) inconjuntos, transportavam-se para além do corpo patrão, indo juntar-se às linhas do outro, como se quisessem não mais ter história mortal, como se quisessem continuar sem começo nem fim. Cada linha fugia do corpo-morada e emparelhava-se à linha vizinha de frente. Em poucas horas incontadas, as epidermes da moça de flor e do moço de chuva findaram-se, ignorando as cores do cenário. Eternizaram-se, num bailar ininterrupto. A imagem em movimento inabalável tornou-se atração do salão, logo emoldurada. Cena de temporal.
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"E o amor que se perdeu, ao retornar, sempre há de ser mais belo, e maior, e mais grato, e mais forte."
Willian Shakespeare

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27 de julho de 2010

fones nos ouvidos

A música chegando para mim pelos fones nos ouvidos, naquela tarde de tempo virado, vento gelado e o rosto em fatias. Pensei, "não preciso mais esperar esses dias".


A música, aquela. A gente, na verdade, só precisa dos três minutos dela.

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16 de julho de 2010

Em cada palavra eu faço aniversário

Há as palavras que leio. Há as palavras que escrevo. Nelas, o contorno dos meus ciclos inteiros. É inegável perceber as minhas histórias passando pelo traço de cada letra; outras novas, mesmo alheias, começando a partir daquele ponto. E compondo agora, que idade tenho?
Silencio as palavras que desejo para conservar os meus anos. As que mais me dizem ficam aqui, dentro, acessíveis apenas a quem aceita comemorar comigo. No auge do calar minha boca, as palavras me saltam dos sentidos e fazem um único pedido:

Diga-me algo - são os meus olhos, a minha língua, todos abrindo a porta dos ouvidos.

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14 de julho de 2010

-se

Boca abriu.
Corpo amou.
Olho permitiu.
Alma entregou.

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10 de julho de 2010

Partida

Se você quer me deixar
Querido, vá em frente
Nada do que tenho agora
Manteve-se presente

Enganei-me por amar
Um ser descrente
Mal soube localizar
Toda a anulação vigente

No fundo, eu sou mais
Sem antes jamais admitir
Que meus trovões e calmarias
São todos amor por vir

Ande, tenha pressa em ir
É você quem diz adeus
E sou eu
Quem nunca esteve aqui


Does anybody have a clue how hard I worked at loving you?
Amos Lee

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9 de julho de 2010

Fim de tarde

O céu estava rosa
E choveu melancolia
No jardim cultivado dentro de mim.

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