31 de julho de 2010

Baile

Tinha a mão na cintura e a outra em par com a nuca do moço de camisa azul cor-do-céu-quando-está-para-chover. O mesmo moço enlaçava a moça com seus braços longos, cobria as costas com a palma da mão gigante e a rodava feito moinho de vento, sinalizando tempestade. Em trovões, foram embalsamando a ocasião. Já saiam do compasso quando deram conta do encontro. Perceberam a junção das próprias matérias salpicadas de sons e palavras cantadas na raiz da audição. Mantinham-se calados, dando vez aos termos saltados dos olhos, fuzilantes da alma alheia ali. A saia florida feito primavera recém-chegada convidava os joelhos do moço ao encontro dela, num embalo lento, desenhando jardins no ar. A camisa quase-chuva alimentava as flores da saia, e de seus donos fluíam sensações de nova estação. Todo o instante fez-se de pequeninos momentos deles, bailarinos donos do espaço. A nova época anunciava outra combinação de cores, na mistura líquida trazida daquela percepção invadida nos moços juntos. Os fios que marcavam cada pele, resultado de outros bailes e outros pares (mas) inconjuntos, transportavam-se para além do corpo patrão, indo juntar-se às linhas do outro, como se quisessem não mais ter história mortal, como se quisessem continuar sem começo nem fim. Cada linha fugia do corpo-morada e emparelhava-se à linha vizinha de frente. Em poucas horas incontadas, as epidermes da moça de flor e do moço de chuva findaram-se, ignorando as cores do cenário. Eternizaram-se, num bailar ininterrupto. A imagem em movimento inabalável tornou-se atração do salão, logo emoldurada. Cena de temporal.
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"E o amor que se perdeu, ao retornar, sempre há de ser mais belo, e maior, e mais grato, e mais forte."
Willian Shakespeare

1 comentários:

.raphael. disse...

to ouvindo isso agora enquanto leio:
"O cabaré se inflama / Quando ela dança / E com a mesma esperança / Todos lhe põe o olhar / E eu, o dono,
Aqui no meu abandono / Espero louco se sono / O cabaré terminar / Rapaz!Leva esta mulher contigo"

beijoss